Archive for the 'poesia' Category

11
Dec

Natal à Beira-Rio

Uma prenda de Natal que recebi ontem vinha acompanhada deste poema.

NATAL À BEIRA-RIO
É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado…
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988
Lisboa, Editorial Presença, 1988

11
Dec

Maria-dos-olhos-grandes e Zé Pimpão

Uma das festas de Natal que vou este ano tem esta história. Vale a pena ler.

Maria-dos-olhos-grandes e Zé Pimpão

Maria-dos-olhos-grandes
tinha uns olhos grandes grandes
que pareciam azeitonas
Maria-dos-olhos-grandes
tinha uns olhos de ver o mundo
Maria tinha umas tranças
pequeninas
bem espetadas
pareciam duas antenas
Maria tinha umas tranças
bem espetadas de ouvir o mundo
Maria tinha um vestido
que era de todas as cores
mas uma de cada vez
Maria tinha um vestido
com todas as cores do mundo

 

Maria tinha um amigo
muito giro muito vivo
moço da rua e da gente
era um amigo a valer
Maria tinha um amigo
chamava-se Zé Pimpão
Zé Pimpão era um miúdo
de olhos piscos guedelhudo
Zé Pimpão sabia o mundo
Zé Pimpão tinha nos olhos
as viagens que sonhou.
Zé Pimpão tinha nos olhos
a côr do sol e do mar
Zé Pimpão tinha nos pés
uns pés grandes e descalços
Zé Pimpão com os pés nús
sentia melhor a rua

 

Numa manhã quente quente
com o sol bem descarado
com um sol de passear
assobiou Zé Pimpão
para apressar a Maria
Maria veio, deu-lhe a mão
foram-se os dois a cantar
Zé Pimpão levou Maria
a ver o mundo muito longe
Zé Pimpão levou Maria
a ver os dois lados do mundo

 

Maria-dos-olhos-grandes
não podia acreditar
que o mundo era assim
Maria-dos-olhos-grandes
julgava que o mundo mundo
era só o seu jardim

 

Zé Pimpão estava contente
Mas não sabia Maria que depois
do seu jardim…
Mas não sabia Maria
que o mundo era muita gente?
Maria-dos-olhos-grandes
pensava que o mundo a sério
a tia Joaquina
era o tio Salustrião
era o pai e era a mãe
mais o primo pequenino
e é claro o Zé Pimpão
Maria-dos-olhos-grandes
Via o mundo pequenino

 

E Zé Pimpão mais sizudo
mostrou então à Maria
que num dos lados do mundo
havia prédios bem altos
e mais jardins floridos
muita luz e muitas cores
Zé Pimpão levou Maria
do lado de cá do mundo

 

Foram foram saltitando
sobre as pedrinhas na lama
vendo cortinas-jornais
telhados de papelão
e miúdos reinadios
amigos do Zé Pimpão
que nunca olharam o céu
pois vêem o sol nos charcos
pois vêm o sol no chão
Com uns olhos tristes tristes
Zé Pimpão levou Maria
do lado de lá do mundo
do lado que não se vê

 

onde há barracas escuras
Feitas nem sabe de quê
e miúdos a chorar
e onde os brinquedos são pedras
e a lama são os jardins
Zé Pimpão levou Maria
do lado de lá do mundo

 

Maria viu e reviu
um mundo novo tão velho
que precisa de aprender
que precisa que os meninos
o ensinem a crescer
Para fazer um mundo novo
um mundo velho tão novo
Quando voltaram à noite
Maria-dos-olhos-grandes
com uns olhos de ver mundo
trazia o mundo nos olhos
para dizer ao Zé Pimpão:

 

Zé Pimpão vamos fazer
que haja um só lado do mundo
Ou só o lado de cá
ou só o lado de lá
Zé pimpão eu queria o mundo
com todos do mesmo lado
Se não há jardins para todos
vou dividir os canteiros
se os canteiros não chegarem
uma flor para cada um
e se as flores forem poucas
há pétalas
enfim há cheiro
mas todos terão igual.

Canuto Jorge Glória - Edições ITAU - s/data

11
Dec

Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

-

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.




 

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